Problemas de desenvolvimento infantil: como identificar?

Quando um bebé nasce – e mesmo antes disso, ainda no útero – ele inicia uma trajetória de crescimento e desenvolvimento. Está a desenvolver-se em diferentes domínios: físico e motor, psicológico, social e emocional. São múltiplas e variadas as aquisições que uma criança vai fazendo em curtos espaços de tempo.

Enquanto pais, é importante estarmos atentos ao desenvolvimento dos nossos filhos e sermos capazes de detetar alterações ou sinais de alerta e procurar ajuda especializada, prevenindo o agravamento de eventuais problemas de desenvolvimento infantil.

Por isso, neste artigo vamos falar sobre o desenvolvimento e ajudar a identificar os problemas de desenvolvimento infantil e os fatores que nele interferem.

Como é que o bebé ou criança se desenvolve?

Podemos pensar o desenvolvimento da nossa criança como uma subida gradual a uma escada, onde existem diferentes degraus, ou seja, diferentes marcos ou fases. Isto quer dizer que existem marcos desenvolvimentais à medida que a criança cresce e se desenvolve, e esses marcos correspondem à aquisição de competências importantes em diferentes domínios: os primeiros passos, a introdução de alimentação sólida, as primeiras palavras…

O desenvolvimento da criança acontece por etapas e os diferentes domínios do desenvolvimento têm influência uns sobre os outros. A forma como a criança desenvolve a linguagem, por exemplo, vai influenciar a sua capacidade de desenvolver determinadas competências sociais, como a capacidade de interagir com outras crianças. Num outro exemplo, a forma como a criança desenvolve as suas capacidades motoras, vai influenciar a sua capacidade de aprendizagem.

Apesar de existirem diferentes etapas no desenvolvimento, cada criança faz o seu percurso e desenvolve-se ao seu ritmo. As diferentes fases do desenvolvimento não são rígidas nem têm timings específicos, existindo sempre variabilidade de criança para criança.

Fatores que impactam o desenvolvimento infantil

Existem alguns fatores que impactam o desenvolvimento, podendo contribuir para a existência de problemas de desenvolvimento infantil ou, pelo contrário, para os prevenir. Existem fatores genéticos, que são pouco controláveis, e fatores do ambiente onde a criança cresce e se desenvolve. Todos estes fatores acabam por interagir entre si e provocar mudanças que acompanham o desenvolvimento.

Vejamos alguns fatores que podem ter influência e impacto no desenvolvimento infantil:

  • Ambiente intrauterino e cuidados pré-natais, sendo que podemos incluir aqui a alimentação da mãe durante a gravidez, o seu estado de saúde global, a presença de hábitos nocivos ou substâncias lesivas ao feto, etc;
  • Prematuridade;
  • Parto e existência ou não de intercorrências durante o trabalho de parto;
  • Problemas sensoriais, como por exemplo de visão ou audição;
  • Cuidados que o recém-nascido recebe logo após o nascimento;
  • Temperamento enquanto recém-nascido (fácil vs difícil);
  • Forma como os pais respondem ao choro da criança e são, ou não, capazes de ser responsivos às suas necessidades;
  • Existência ou não de um ambiente acolhedor onde existe afeto e harmonia;
  • Presença ou não de perdas e separações no início da vida do bebé;
  • Forma como o ambiente em que o bebé está inserido o estimula;  
  • Disciplina e consistência por parte dos pais/cuidadores;
  • Alimentação ajustada às necessidades da criança nas suas diferentes fases do desenvolvimento.

Sinais de problemas de desenvolvimento infantil

Enquanto pais, conhecemos melhor que ninguém os nossos filhos e devemos, regra geral, confiar na nossa intuição. Será o nosso olhar atento que permitirá identificar as necessidades dos nossos filhos e a subsequente procura por respostas a essas necessidades.

Por isso, sempre que algum aspeto do desenvolvimento dos seus filhos o/a preocupar, vale a pena marcar uma consulta médica e procurar ajuda.

Ainda assim, pode ser importante também, para além da intuição, sabermos o que devemos observar, que sinais nos devem preocupar. Assim, apresentamos alguns dos sintomas que podem ser indicativos de problemas de desenvolvimento infantil, por domínios.

Problemas de desenvolvimento infantil motor

Entre os problemas que podem causar atrasos motores encontram-se a paralisia cerebral moderada, as perturbações de movimento e a síndrome de Tourette. Alguns dos sinais a que podemos estar atentos são:

  • Músculos do bebé demasiadamente flácidos ou, pelo contrário, hipertónicos ou demasiado ativos;
  • O bebé não usa um membro, não consegue levantar a cabeça ou erguer partes do corpo;
  • O bebé tem os músculos de tal modo tensos que isto interfere com a sua capacidade de experimentar e aprender novas tarefas;
  • Não dirige as mãos para os objetos, quando quer agarrá-los;
  • Aos 6 meses: não consegue rolar, não sustenta a cabeça e/ou não levanta a cabeça e ombros quando deitado de barriga para baixo;
  • Aos 9 meses: não se sustenta de pé com apoio, não se senta com apoio, não transfere objetos de uma mão para a outra;
  • Aos 18 meses, não se sustem de pé e/ou não anda;
  • Quando começa a andar, tem um modo brusco e pouco firme de se pôr de pé ou de tentar fazê-lo;
  • Aos 2 anos, não corre, não usa escadas agarrado, não atira uma bola, a sua marcha é desequilibrada;
  • Aos 3 anos, dá quedas frequentes, não consegue subir e descer escadas, não pontapeia uma bola, não salta com os dois pés;
  • Aos 4 anos, não salta, não pedala um triciclo, não apanha, atira ou pontapeia uma bola.

As consultas periódicas com um pediatra são importantes, pois nela podemos apresentar as nossas preocupações, além de o médico também fazer uma avaliação dos marcos do desenvolvimento que lhe permitirá verificar se existem possíveis sinais de problemas de desenvolvimento infantil do ponto de vista motor.

De salientar que a existência de algum problema não significa, necessariamente, uma sentença. Os bebés e crianças têm uma boa capacidade de recuperação e em muitas das vezes é possível intervir e eliminar o problema existente, através de uma intervenção adequada.

Problemas de desenvolvimento infantil cognitivo

A nível cognitivo, podem existir problemas derivados de défices na aprendizagem ou alguma forma de desorganização do sistema nervoso do bebé ou criança. No entanto, as dificuldades também podem dever-se a uma experiência e estimulação desadequadas.

Podem ainda existir outras causas de problemas de desenvolvimento infantil cognitivo, desde a síndrome de Down a outras formas de atraso mental, distúrbios deficitários da atenção, síndrome alcoólico-fetal, e várias perturbações de aprendizagem.

Certas anomalias sensoriais, como problemas de visão ou audição, podem atrasar o desenvolvimento cognitivo. Neste caso, a intervenção precoce na infância vai ser importante e ajudará a compensar estas dificuldades.

Alguns sinais a estarmos atentos para detetar eventuais problemas de desenvolvimento infantil cognitivo:

  • O bebé, a partir dos 2 meses, não segue os objetos com os olhos;
  • O bebé, a partir dos 2 meses, não responde ao som;
  • Aos 6 meses, não se interessa por alcançar objetos que estão ao seu alcance;
  • Aos 9 meses, não parece reconhecer pessoas familiares;
  • Aos 9 meses, não olha para onde se aponta;
  • Aos 12 meses, não aponta para mostrar objetos;
  • Aos 18 meses, apresenta ausência de jogo simbólico ou de combinações de gestos/linguagem expressiva;
  • Incapacidade em reconhecer a função de objetos comuns como escova, garfo ou colher, aos 2 anos de idade;
  • Incapacidade em cumprir ordens simples aos 2 anos;
  • Aos 3 anos, desconhece o uso funcional dos brinquedos, não brinca ao faz de conta e/ou não cumpre ordens simples;
  • Aos 4 anos, não compreende conceitos de “igual e “diferente”;
  • Aos 5 anos, não compreende regras simples, não distingue realidade da fantasia.

Se numa avaliação médica as preocupações foram validadas e persistirem, pode existir um encaminhamento para um neurologista, um psiquiatra infantil ou um psicólogo infantil, dependendo da causa do problema.

Problemas de desenvolvimento infantil emocional e social

Existem vários fatores que podem interferir com o desenvolvimento emocional do bebé e com a sua capacidade para interagir com os outros. Podemos apontar fatores como a prematuridade, o stress pré-natal, medicação dada à mãe durante o parto, carência de oxigénio ou privação intrauterina, hipersensibilidade a experiências sensoriais…

Alguns dos problemas de desenvolvimento infantil do ponto de vista socioemocional podem ser de curta duração se, enquanto pais, formos pacientes e tentarmos compreender as suas causas. Por exemplo, um bebé que apresenta pouca resposta à estimulação devido a medicação durante o parto, tende a melhorar à medida que a medicação vai perdendo o efeito e que o seu sistema nervoso vai conseguindo um equilíbrio regulatório.

Deste modo, devemos procurar distinguir possíveis alterações transitórias, dar tempo ao bebé para se adaptar. Alguns sinais ou indicadores podem ser úteis para percebermos se, de facto, devemos preocupar-nos:

  • O bebé não presta atenção à voz da mãe ou não fica excitado com a aproximação do pai;
  • O bebé desvia o olhar e/ou apresenta-se alheado dos estímulos sociais;
  • Parece indiferente tanto aos brinquedos como às pessoas que lhe são familiares, não revelando emoções;
  • Começa a desenvolver hábitos repetitivos, como balançar a cabeça, olhar o vazio, baloiçar o corpo, enrolar o cabelo, tapar o rosto com os ouvidos ou as mãos;
  • Não sorri e não se relaciona;
  • Responde com um comportamento repetitivo e sem significado e com um olhar vazio aos estímulos sociais;
  • Resiste a ser pegado ao colo, confortado ou embalado;
  • Ausência de resistência ou negativismo;
  • Não diferencia ou apresenta o mesmo comportamento perante os pais e perante estranhos;
  • Reage inadequadamente aos estímulos sensoriais, por exemplo fica demasiadamente agitado com sons ou luzes que não despertam nos outros qualquer reação.

Devemos ainda estar atentos a problemas de desenvolvimento infantil tardios. Por exemplo, é caso para preocupação uma criança que no segundo e terceiro ano de vida não desenvolve o negativismo e as birras normais da idade. Uma criança que se isola ou que esconde o rosto de outras crianças da mesma idade, pode demonstrar um isolamento e passividade que podem precisar de atenção da nossa parte. Uma criança com problemas emocionais subjacentes pode ficar sentada numa cadeira em frente a uma TV a chuchar no dedo, enrolar o cabelo ou levar os dedos ao nariz ou à cara. Pode alhear-se de quaisquer estímulos, como os avós, outras pessoas ou crianças. Pode apresentar um fraco tónus muscular e palidez, e comer de forma pouco eficiente.

O que devem fazer os pais?

Se, enquanto pais, detetamos nos nossos filhos sinais que nos preocupam, devemos procurar ajuda especializada. Se esses receios forem infundados, tanto melhor. Teremos, na mesma, uma oportunidade de compreender melhor o porquê desses sinais ou comportamentos e teremos uma nova forma de os olhar e enquadrar. Se, por outro lado, existir de facto motivo para preocupação, quanto mais cedo falarmos, mais cedo poderá existir um adequado encaminhamento.

Por muito difícil e angustiante que possa ser termos uma preocupação relativa ao desenvolvimento do nosso filho, devemos lembrar-nos que os bebés e crianças têm uma grande capacidade de recuperação e adaptação. O seu cérebro é moldável e plástico, consegue ajustar-se e regenerar-se em inúmeras situações.

Por isso, procurarmos a resposta adequada às necessidades do bebé ou criança é fundamental e pode ajudar a ultrapassar possíveis dificuldades existentes.

O mais importante, enquanto pais, é estarmos informados, sentirmos que temos as ferramentas necessárias que nos possam ajudar, e, acima de tudo, termos a consciência de que procuramos, sempre, fazer o nosso melhor! Ao darmos o melhor, já estamos a contribuir, sobremaneira, para que o nosso filho se desenvolva de forma feliz e saudável; porque terá pais responsivos e dedicados, fator de grande influência positiva para o seu desenvolvimento.

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