Parto humanizado: o que é, mitos e práticas

Parto humanizado é um conceito que começamos a ouvir cada vez mais, e ainda bem. Como a própria expressão parece sugerir, o parto humanizado vem defender e colocar a ênfase no respeito pela pessoa, pela grávida, atendendo às suas necessidades de forma humana e respeitada.

Apesar de parecer lógica a importância e o carácter positivo de se falar em parto humanizado, há também muitas vezes informação enviesada e alguns mitos associados a este conceito. Não raras vezes, surge a crítica associada, como se parto humanizado viesse retirar poder aos profissionais de saúde ou fosse alguma espécie de filosofia esotérica e contrária à ciência. Nada mais errado.

O parto humanizado não é nada disso, e é também para esclarecer eventuais dúvidas e perceções enviesadas que é importante falar sobre este tema.

O que é o parto humanizado?

O parto humanizado, ou também o processo subjacente a que podemos chamar humanização do parto, é, no fundo, permitir à grávida uma escolha informada, esclarecida e devidamente apoiada.

A atenção humanizada, neste caso ao parto, envolve um conjunto de conhecimentos, atitudes e práticas que procuram promover o parto e o nascimento saudáveis e prevenir problemas físicos ou emocionais e a morbimortalidade materna e perinatal. Esta atenção humanizada não deve existir só no parto, começando logo durante as consultas de acompanhamento pré-natal e procurando garantir que os profissionais de saúde realizam procedimentos que são comprovadamente benéficos para a grávida e o bebé, evitando intervenções desnecessárias e procurando preservar a sua autonomia, privacidade e autodeterminação.

O parto humanizado respeita a fisiologia da gravidez e do parto, defendendo por isso que o papel dos profissionais é acompanhar essa fisiologia, não intervindo de forma excessiva ou desnecessária. O parto humanizado faz referência também à importância de refletir, compreender e respeitar os diferentes aspetos individuais, culturais, emocionais e psíquicos da grávida e da sua família. Deste modo, um parto humanizado devolve o protagonismo à mulher num momento tão único como é o do parto, garantindo que ela possa ter todo o conhecimento e escolha de que necessita.

O parto humanizado direciona a atenção para as necessidades da grávida, concedendo-lhe controlo e poder sobre o parto e o trabalho de parto.

Pensar num parto humanizado é descentrar-se de uma versão medicalizada do parto, compreendendo que este, por natureza, não é um acontecimento patológico, mas sim um fenómeno natural e biológico, com a exceção de quando ocorrem problemas clínicos associados à gravidez e/ou ao parto. Deste modo, se o parto é um fenómeno fisiológico e natural, a mulher é capaz de parir e não precisa de ser “intervencionada”, quando muito precisa de ser assistida e respeitada. Quem a rodeia não protagoniza o parto, apenas assiste, encoraja, respeita, ampara, intervindo apenas e quando necessário. O parto humanizado entende que o parto não é uma coisa que os médicos fazem, é uma coisa que a mulher faz.

A própria Organização Mundial de Saúde considera que a humanização do parto é fundamental nas instituições de saúde. Ou seja, é importante que seja dada autonomia e inclusão à grávida na tomada de decisões sobre os procedimentos que possam ser necessários. Além disso, a forma como os profissionais de saúde acolhem e atendem as grávidas, bebés, casais e família deve ser ressignificada, adotando-se uma postura personalizada e empática, em vez de uma postura robotizada e automatizada para todas as pessoas, sem as diferenciar e sem personalizar cuidados.

O que é necessário para um parto humanizado?

Por vezes pode parecer muito vago o conceito de parto humanizado, ou pode ser difícil concretizar, na prática, o que significa respeitar direitos e vontades ou empoderar a grávida. Para clarificar e ser mais fácil perceber o que significa parto humanizado, podemos olhar para os aspetos que são necessários estar presentes para podermos falar de uma verdadeira humanização do parto:

  • A vontade da grávida deve ser ouvida, considerada e compreendida, perante a sua individualidade, aspetos culturais, sociais e económicos. A grávida deve ser vista como um ser-humano único e considerada como tal, e não olhada como “mais uma”, à qual se aplicam “os procedimentos da praxe” como uma medida que serve a todas de igual forma.
  • Deve promover-se o mais possível a autonomia e a protagonização da grávida no processo de parto e nascimento, o que significa, por exemplo, que a grávida deve poder fazer escolhas e que, sempre que algum procedimento médico for necessário, ela deve ser informada e ouvida. Assim, deve conversar-se com a grávida e informar sobre os procedimentos a ser realizados, pedindo a sua autorização.
  • A grávida deve ser vista como protagonista no processo de parto, considerando-se a sua sabedoria, intuição e instinto no ciclo de gerar vida e de parir.
  • Deve ser compreendida e atendida a fisiologia e biologia humana em favor do parto e do nascimento, percebendo-se que a mulher consegue parir, e que a função de quem a rodeia, nomeadamente dos profissionais, mais do que intervir, é promover e auxiliar e não atrapalhar desnecessariamente (obviamente sempre que falamos em situações de baixo risco clínico). 
  • Não se devem usar procedimentos e métodos invasivos sem justificação ou motivo clínico adequado, evitando-se por exemplo procedimentos cirúrgicos que não estejam indicados ou medicação excessiva. Os procedimentos devem passar sempre pelo consentimento informado da grávida.
  • Deve respeitar-se a privacidade da mulher, o mais possível, o seu direito à escolha de acompanhante. Deve também procurar que seja promovido, o mais possível, um ambiente acolhedor durante o trabalho de parto, oferecendo-se os melhores recursos e condições disponíveis, para que a grávida se sinta acolhida e segura.
  • Deve disponibilizar-se, durante o trabalho de parto, suporte emocional empático, bem como prestar informações sempre que sejam necessárias e sempre que a grávida e/ou acompanhantes solicitarem.
  • Deve procurar respeitar-se, dentro do possível, as vontades da mulher relativamente a aspetos do parto como realizar ou não episiotomia, o momento de corte do cordão umbilical, as posições adotadas durante o trabalho de parto e a liberdade de movimentos, os métodos de alívio da dor e a vontade de receber ou não métodos farmacológicos e quando os receber, as formas de monitorização do feto, etc. Estas informações podem constar de um plano de parto previamente elaborada pela grávida, mas também podem ir sendo comunicadas aos profissionais de saúde.
  • Os profissionais de saúde devem praticar uma medicina baseada em evidências científicas e empíricas, abstendo-se de práticas que não tenham comprovada utilidade ou eficácia.

Desconstruir mitos sobre o parto humanizado

Como anteriormente referido, muitas vezes existem informações pouco corretas e alguns mitos em torno do conceito de parto humanizado. É importante esclarecer e desconstruir estes mitos e dúvidas, sendo algumas das principais:

O parto humanizado é seguro?

Sim! Se pensarmos, sempre que falamos em saúde, é muito mais seguro quando a pessoa em causa tem conhecimento daquilo que se passa consigo, dos procedimentos necessários em termos médicos se os houver, etc. Ter informação não significa retirar poder aos profissionais de saúde, mas sim dar também poder à grávida. O parto humanizado é seguro e deve ser visto não como uma opção, mas como o procedimento standard em qualquer instituição de saúde.

Se não for parto normal, já não é humanizado?

Não! O parto humanizado existe sempre que o tratamento e a forma como é gerida a situação de parto, garantem o respeito pelos direitos, vontades e opções de escolha da grávida e/ou do casal. Um parto por cesariana pode ser um parto humanizado, desde que tenha sido um parto que respeite esses princípios e onde a grávida e as suas vontades tenham sido, o mais possível, consideradas e respeitadas.

Algumas medidas que podem ajudar a humanizar o parto por cesariana são: permitir o acompanhamento durante o trabalho de parto, luz baixa e controlo do ruído, não amarrar as mãos da grávida, permitir o contacto pele-a-pele com o bebé após o nascimento, entre outras medidas que a grávida considere que lhe possam dar conforto (escolha de música, por exemplo) durante a cirurgia. Assim, o parto humanizado não é um tipo de parto, mas sim uma forma de tratar e encarar o processo do parto.

O parto humanizado é sempre possível?

Sim, sempre! Independentemente do tipo de parto realizado (parto normal ou cesariana) ou se existem intercorrências e problemas clínicos ou não, é possível existir um parto humanizado. Ele tem lugar sempre e quando a grávida é tratada com respeito e se procura promover, o mais possível, uma experiência de parto positivo e se prioriza a segurança e o bem-estar da mãe e do bebé.

O parto humanizado desvaloriza os avanços da medicina?

Não! O parto humanizado oferece uma visão sustentável e mais humana do parto, não negando de forma nenhuma todas as intervenções e apoio médico que possam ser necessários. Não é sobre o que se faz ou que meios se utiliza, mas a forma como se faz e o respeito que é tido pela vontade da grávida no processo.

Que práticas devem ser respeitadas no parto e pós-parto?

Insere-se no parto humanizado o respeito por determinadas práticas, sempre que estas sejam possíveis e que não haja problemas clínicos que o impeçam. Algumas destas práticas importantes que devem ser respeitadas num parto humanizado são:

  • Privacidade para a grávida e para o/a seu/sua acompanhante;
  • Liberdade de movimentos, possibilidade para se movimentar, mudar de posição, caminhar, sentar, etc;
  • Possibilidade de se alimentar com líquidos ou alimentos leves;
  • Acesso a métodos para alívio da dor durante o trabalho de parto e a evolução do mesmo, desde métodos não-farmacológicos como a massagem, até métodos farmacológicos como a analgesia;
  • Realização da monitorização fetal e controlo dos sinais vitais da mãe, além de outros procedimentos necessários;
  • Possibilidade de a grávida escolher a melhor posição para o parto;
  • Contacto imediato pele-a-pele entre a mãe e o bebé (se a mãe desejar), independentemente do tipo de parto, durante a primeira hora de vida;
  • Escolha do momento e da pessoa para o corte do cordão umbilical;
  • Promoção da amamentação, caso desejado pela grávida, na primeira hora de vida;
  • Realização dos procedimentos de rotina ao recém-nascido apenas quando necessário, se possível após a primeira hora de vida, e permitindo a participação da mãe e/ou de acompanhante, mediante as circunstâncias.

Quais os benefícios do parto humanizado?

Existem diversos benefícios de um parto humanizado, nomeadamente do ponto de vista psicológico e emocional:

  • Experiência de parto mais positiva e feliz, com uma maior predominância de emoções e associações positivas do que negativas;
  • Alívio e conforto que tornam o nascimento do bebé um momento especial e mais agradável;
  • Diminuição da morbimortalidade materna e perinatal;
  • Pós-parto torna-se menos difícil e doloroso;
  • Promoção da amamentação e do aleitamento materno;
  • Redução de índices de depressão pós-parto;
  • Facilitação do vínculo mãe-bebé.

O que fazer para garantir um parto humanizado?

Sabemos que muitas coisas não estão dentro do nosso controlo e que, no parto e no nascimento, muita coisa é imprevisível. No entanto, há algumas coisas sobre as quais podemos ter algum controlo e, focando-se nesses aspetos, podemos sentir um maior empoderamento, que é tão importante neste momento de maior vulnerabilidade.

Assim, há alguns aspetos que podemos procurar garantir para aumentar a probabilidade de termos um parto humanizado e o mais positivo e próximo às nossas expectativas possível:

  • Escolher bem os profissionais de saúde que irão acompanhar durante gravidez e parto, procurando o mais possível uma instituição e uma equipa de saúde com as quais se identifique.
  • Informar-se sobre as práticas e procedimentos habituais na instituição de saúde onde pretende ter o parto e falar antecipadamente com a equipa de saúde sobre as opções de escolha.
  • Escolher bem o acompanhante que quer ao seu lado durante o parto e comunicar com esta pessoa sobre as suas escolhas e opções. O acompanhante pode ter um papel importantíssimo de a proteger e fazer valer certas vontades quando estiver num momento de maior vulnerabilidade. Por isso, garantir ter ao lado a pessoa certa e comunicar com ela as suas vontades, preferências, desejos, bem como conversarem sobre como querem agir em diferentes cenários, é fundamental. O acompanhante pode questionar a equipa de saúde quando não tiver a certeza de certos procedimentos e do porquê de estarem a ser realizados, pode procurar que o plano de parto seja respeitado, pode tomar decisões, pode servir de testemunha em caso de violência obstétrica, etc. Por isso, escolha para a acompanhar a pessoa que irá honrar esse compromisso e comuniquem antecipadamente.
  • Procurar informação e saber e conhecer mais sobre o processo de parto e nascimento, sobre os direitos que tem enquanto grávida, entre outras informações pertinentes. Quanto mais informada estiver, mais ferramentas terá para garantir algumas coisas importantes para si no momento do parto e do nascimento. Procure informação em sites, livros, e informe-se também sobre cursos de preparação para o parto, que também podem ser uma grande ajuda. Ao procurar estes cursos, procure assegurar-se de que se identifica com os profissionais e a abordagem utilizada.
  • Tomar contacto, ainda durante a gravidez e fazendo uso de toda a informação reunida sobre o processo de gestação e parto, com o próprio corpo e as dinâmicas do mesmo. Ou seja, procure conhecer o seu corpo, ouvir as suas mudanças, observar e conhecer a sua musculatura pélvica (sessões de fisioterapia pélvica ou mesmo de yoga podem ajudar), aprender a controlar a respiração e usar métodos de relaxamento, etc. Em síntese, aumente a sua autoconsciência corporal.
  • Elaborar um plano de parto, seja redigido e entregue de forma mais formal, ou seja só como instrumento para pensar, refletir e ponderar as suas escolhas e aquilo que é importante para si no momento do parto. Ter um plano de parto poderá ajudar muito a que tenha voz quando não estiver em condições ideias de comunicar da forma mais clara as suas vontades.

Em síntese, parto humanizado deve existir sempre, tem inúmeros benefícios e podemos tentar fazer algumas coisas que nos ajudam a assegurar esta experiência, por uma vivência do parto mais leve, feliz e empoderada!

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